quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Os Amores Imaginários de Dolan


O problema de filmes com a temática gay é quase sempre o mesmo, abusar ou se conter no que diz respeito à formação estereotípica do personagem em questão, há de se encontrar um equilíbrio para que tudo pareça o mais natural possível, como nos filmes de Almodovar ou outro que o valha. É essa naturalidade que eu percebi nesse filme, que me parece tão bonito e triste ao mesmo tempo, em parte por compreender uma grande gama dos sofrimentos ali mostrados e em parte por não os conhecer ao todo. O filme trata de amor e ponto. Até onde vão nossas paixões - muitas vezes sem sentido, muitas vezes sem motivo, mas não menos intensas. E a abordagem do triângulo amoroso ( se é que podemos chamar de amoroso ) é única também ao seu modo, gestos, carinhos, abraços ganham grande importância, assim como olhares e andares, mostrados em camera lenta quase que o filme inteiro e acompanhados por uma trilha sonora carregada de emoção combinando com os momentos e movimentos daquela dança perigosa à três.

Xavier Dolan ( um novato para mim ) é diretor e um dos atores principais do filme fazendo Francis que é amigo de Marie ( Monia Chokri ) que parece ter saído dos anos 60 com uma caracterização incrível e super expressiva. Ambos conhecem um jovem encantador, praticamente perfeito, amante de artes, moda, e tudo o mais que couber na lista ele vem como um anjo nas suas primeiras cenas, sendo dissecado pelos olhos tanto dos personagens como dos expectadores, Nicolas é um ideal quase metafórico do que se deseja, e mais ainda ele desperta algo tanto em Francis quanto em Marie, esse é o conflito, aí é que se destrói a felicidade dos dois amigos.

Durante todo o filme, acontece aquela pergunta 'será que ele é?' e ao mesmo tempo nos perguntamos, 'se ele é, porque dá tanto carinho para Marie?' e esse jogo de dúvida fica nos alfinetando durante o filme, culminando em uma briga memorável entre as folhas das árvores entre Marie e Francis, que são observados do alto por Nicolas, que apenas sorri e solta a frase que mais marca o filme: " Quem me amar mais que me siga " e vai embora. Daí em diante imaginei que haveria algo mais a destruir a vida daqueles dois. Porém o filme toma um rumo mais interessante de se ver e tentar compreender, uma espécie de mensagem para aqueles que se veem nessa situação terrível.

Claro que alguns pontos se tornam exagerados, porém imagino que não seja tão diferente da vida real, idealizarmos um amor a ponto de rompermos com tudo, a sociedade e a melhor amizade até mesmo seus sonhos. Xavier Dolan transpos para a tela um desespero que só quem passa por tal desilusão amorosa poderá absorver e quem sabe deixar cair lágrimas perante o sofrimento calado de Francis.


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